sexta-feira, 1 de julho de 2011

Histórias da Astronomia - "A Pluraridade dos Mundos Habitados"

Nelson Travnik*

O tema é atual e contagia mentes voltadas à vida extraterrestre. O número de planetas orbitando outras estrelas não pára de crescer. Somente em quatro meses o telescópio espacial Kepler da NASA descobriu 1235 possíveis novos planetas dos quais 68 do tamanho da Terra que estão na zona habitável. Já é aceito que nos próximos 25 anos estaremos recebendo sinais de alguma civilização extraterrestre. O assunto contudo no século 19, era dos mais polêmicos e mesmo para a comunidade científica escrever sobre ele era um ato de coragem.


MÁRTIR DA CIÊNCIA

O primeiro a defender um universo infinito, sem limites, com sóis ao redor do qual giravam planetas que deveriam ser habitados por seres que acreditavam ser também o centro do universo, foi o filosofo italiano Giordano Bruno (1550-1600). Em 1591, escreveu entre outros, o livro “ De immenso “ no qual defendia o sistema heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543). Como sabemos, essas idéias não agradou a Igreja e a Inquisição por falta de retratação acabou condenando-o à fogueira que aconteceu em Roma, no Campo di Fiori, no dia 9 de fevereiro de 1600.


HÁ 150 ANOS


O tema voltaria a ser alvo de acirradas discussões. Em 1861, com apenas 19 anos, o astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) durante sua estada no Observatório de Paris empreendeu a difícil tarefa de abordar a questão da vida em outros planetas. Seu livro “A Pluralidade dos Mundos Habitados” foi publicado no ano seguinte pela editora Mallet-Bechelier. É fácil imaginar o impacto que o livro provocou na maioria das pessoas embevecidas com a idéia da Terra ser um planeta especial, centro da criação, único a abrigar vida. Contudo entre celebridades como Victor Hugo (1802-1885) o livro foi bem recebido. Em 1864 a primeira edição esgotou. Uma após uma as edições não paravam. Meu exemplar, de 1921, já era a 30ª edição!

A REAÇÃO

“Vós não sóis um astrônomo, sóis um poeta!” Com essas palavras em 1862, Urban Le Verrier (1811-1877), o imortal descobridor do planeta Netuno, então diretor do Observatório de Paris, demitiu o jovem Camille Flammarion pelo grave erro de haver escrito o livro sobre um tema inaceitável para ele. Le Verrier achava que tal era uma idéia medíocre e uma pura fantasia. Flammarion havia sido aceito em junho de 1858 como aluno astrônomo lotado no Departamento de Longitudes, encarregado dos cálculos das posições da Lua para o conhecimento do tempo. Contudo o sucesso do livro em todo o mundo fez com que Le Verrier, reconhecendo erro, convidasse Flammarion a reingressar no Observatório para se ocupar de observações micrométricas de estrelas duplas o que ele fez impecavelmente. Seu ‘Catálogo de Estrelas Duplas e Múltiplas’ publicado em 1878 foi durante muitos anos, o melhor do mundo.

EXOPLANETAS

Se estivesse vivo, o que diria Le Verrier e muitos outros nessa onda de descobertas de planetas orbitando outras estrelas? O que outrora parecia um privilégio do Sol, hoje já é aceito que a maioria das estrelas possuem planetas ao seu redor. Seria uma enorme presunção pensar ainda que somos a única civilização existente na imensidão cósmica.Os cientistas acreditam que pode haver civilizações lá fora e que já chegaram a um estágio de desenvolvimento suficiente para emitir ondas de rádio. Um novo radiotelescópio, o maior móvel do mundo no estado da Virginia, EEUU, está empenhado em ouvir atentamente 68 planetas selecionados pelo programa SETI ( sigla em inglês de busca por vida inteligente fora da Terra) dentre os 1235 até agora ma peados pelo telescópio espacial Kepler. O radiotelescópio “Robert C. Byrd Green Bank” é capaz de analisar 300 vezes mais freqüências de rádio do que o seu rival em Arecibo, Porto Rico, palco do filme ‘Contato’ de 1997 baseado no livro de Carl Sagan. O maior radiotelescópio imóvel do mundo ainda é o ‘RATAN-600 na Rússia com uma antena circular de 576 metros de diâmetro. A astronomia está reverenciando Giordano Bruno e Camille Flammarion, dois nomes, duas mentes que avançaram no tempo enfrentando altivamente dogmas, incredulidade e preconceitos. Estamos no limiar de constatações que irão mudar a estrutura filosófica milenar e contemporânea criada pelo homem. Quem viver verá!

*O autor é astrônomo responsável pelos observatórios astronômicos de Americana e Piracicaba, SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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