quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Rubens de Azevedo

Personagens da nossa Astronomia

RUBENS DE AZEVEDO 1921-2008
*Nelson Travnik


Naquela tarde de 17 de janeiro de 2008, cerca das 18h00 em Fortaleza - CE, a astronomia nacional perdia uma de suas figuras mais expressivas : Rubens de Azevedo, geógrafo, astrônomo amador, escritor, jornalista, artista plástico e poeta. Tantas qualidades em uma só pessoa. Rubens nasceu em Fortaleza,Ce, no dia 30 de outubro de 1921, filho do pintor e poeta Otacílio de Azevedo. Ainda na infância e adolescência, um amigo costumava emprestar-lhe a coleção “Tesouros da Juventude” e a partir dele Rubens correu atrás de saber o que havia além das estrelas.

PRIMEIROS PASSOS

Mais tarde como ele dizia, por questão de pobreza, pois sua luneta era pouco potente, passou a observar e estudar a Lua. Foi o primeiro passo para reunir interessados e fundar em 1947 a Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia, SBAA, a primeira no Brasil e que serviu de estímulo para a criação de várias outras sociedades no País. No teto de sua casa construiu o Observatório Camille Flammarion onde realizou notáveis desenhos do cometa 1948 L. Já nesta época, auxiliado por um amigo, publicava o boletim ‘Zodíaco’ que retornaria mais tarde quando voltou a fixar residência em Fortaleza - CE. Em 1949 conheceu aquela que seria sua esposa, colaboradora e fiel companheira em todos os momentos, Jandira Carvalho de Azevedo, escritora, jornalista e poetisa. É desta época o livro ‘Uma Viagem Sideral’ e um mapa da Lua, único no País com 80 cm de diâmetro cuja cópia pode ser encontrada no Museu do Eclipse em Sobral, CE. Em 1951 Rubens foi diplomado em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Ceará.

EM SÃO PAULO

Ainda em 1951, convencido pelo renomado físico Romulo Argentiére, Rubens arrumou as malas e mudou-se para São Paulo. Nesta cidade pode melhorar seus estudos e encontrar pessoas como Jean Nicolini, Sakahrov, Frederico Funari e Zambardini entre outros. Esses contatos foram extremamente importantes na vida de Rubens e sua esposa. Fundou a Sociedade Brasileira de Selenografia. Publicou os livros: ‘O Desenho sem Mestre’ (1954), ‘Selene – A Lua ao Alcance de Todos’ (1959), ‘Lua, Degrau para o Infinito’ e ‘Na Era da Astronáutica’ (1962). Em São Paulo, Rubens colaborou com vários artigos na imprensa e em outros livros como o ‘Atlas Geográfico’ e o ‘Novo Dicionário’ da Editora Melhoramentos e a ‘Geologia Aplicada a Selenografia’ na revista da Escola de Minas de Ouro Preto, MG, VOL. 31. Rubens mantinha a esta época contato com os renomados selenógrafos Patrick Moore e Percy Wilkins. Certa vez Wilkins solicitou a Rubens a observação de uma cratera para confirmar uma serie de coisas, ciente de sua aptidão para o desenho. Não dispondo de um instrumento potente, através do seu colega Flávio A. Pereira, solicitou o uso ao IAG-USP da luneta Zeiss de 175mm para poder fazer o desenho da cratera solicitada por Wilkins. A resposta foi que não queriam nenhum amador por lá! Isto já sendo Rubens respeitado e admirado em muitos países. Em 9 de janeiro de 1963, ao observar a Lua, avistou um acidente na região de Grimaldi a quem chamou Vale Brasilienses. Astrônomos amadores no Chile disseram ter observado o vale e até propuseram batizá-lo como Vale Azevedo o que Rubens não concordou. De difícil observação, existe dúvida quanto a definição exata do acidente e para isso consultei um expert em observações lunares, Prof. Vaz Tolentino do Observatório Lunar de Belo Horizonte, MG. Segundo ele que utilizou telescópio e câmera CCD com altíssima resolução, o Vale Brasilienses existe e se encontra em uma fotografia feita por ele em 20/12/2010 e relata: “uma escarpa (rupes) de cor branca e desenho curvo, que parte da cratera Grimaldi A (do lado oeste de Grimaldi), encontra uma cadeia reta de montanhas que parte da borda de Grimaldi com orientação sudoeste, criando assim um vale entre as duas formações”. E acrescenta: O Vale se afunila na direção sudoeste onde, no final do ‘funil’ inicia-se um canal (rille) longitudinal muito fino, que transpõe transversalmente algumas cadeias de montanhas ao longo do seu caminhamento até “afinar” tanto que desaparece nas montanhas seguintes antes de atingir o limbo lunar”. Já o astrônomo Nelson Falsarella de S. J. do Rio Preto, SP, atualmente o maior expert brasileiro em observações do planeta Marte, observando a região em várias oportunidades com seu telescópio refletor newtoniano de 200 mm e munido de uma videocâmera CCD, observa que não há uma definição exata sobre o acidente. Para ele, Rubens parece ter confundido o acidente com uma sucessão de crateras, com uma raia ou com um canal. Falsarella tece uma série de considerações apoiado em desenhos e fotos feitos por ele, 5 desenhos feitos por Rubens e imagens da sonda americana Galileo quando de sua passagem pela Terra em 8/12/1990 bem como das feitas pela Lunar Orbiter 4 em maio de 1967. Essas considerações feitas por esses exímios observadores mostra que o assunto ainda requer mais observações e isto é realmente fascinante.

NO RIO GRANDE DO NORTE

Em 1966 arrumou novamente as malas e foi residir em Natal, RN e lá junto a Associação Norte-Riograndense de Astronomia, ANRA, presidida pelo Dr. Antônio Soares Filho, foi a mola mestra para a realização em 1967 do VI Congresso da Liga Latino Americana de Astronomia, LIADA. Os meios colocados à disposição pelo Governador do Estado, Monsenhor W. Gurgel e a Marinha do Brasil foi de tal envergadura que nunca mais se viu algo parecido até os dias de hoje. Foi nessa ocasião meu primeiro contato com Rubens.

NA PARAIBA

Mais parecendo um astrônomo cigano, a seguir Rubens foi residir em João Pessoa, PB. Lá conseguiu a construção do Observatório da Paraíba na Fundação Padre Ibiapina e a realização do Primeiro Encontro Nacional de Astronomia, ENAST em julho de 1970. Em 1969 publicou o livro ‘No Mundo da Estelândia’. A presença de Rubens em João Pessoa foi decisiva para a implantação mais tarde do Planetário Carl Zeiss Spacemaster que seria inaugurado em 18/06/1982 no Espaço Cultural José Lins do Rego, doado pelo então CEDATE-MEC. Ainda em João Pessoa, face a sua notória e reconhecida experiência na observação lunar, foi indicado pelo Dr. Ronaldo R. de Freitas Mourão do Observatório Nacional, CNPq-MST, para fazer parte da equipe inicial de cinco astrônomos que iria colaborar com observações no Projeto Apollo da NASA-JPL-Smithsonian Institution, denominado ‘Lunar International Observers Network’, LION. Do programa constavam observações dos chamados TLP’s, Transiente Lunar Phenomena. A partir daí observadores devidamente treinados de várias instituições, a maioria astrônomos amadores, viram-se incorporados ao Programa LION. Durante o Programa, o Brasil colaborou com 63 observações de TLP’s por 23 observadores. Nesta época Rubens realizou uma importante constatação de brilho incomum na cratera Aristarco, confirmada pelo astronauta Edwin Aldrin. Graças a Rubens, a Universidade do Sertão de João Pessoa em 1972 publicou relatório completo das observações realizadas no Brasil, solicitadas a mim pelo coordenador do Programa LION no Brasil, Dr. Ronaldo R. F. Mourão. Mourão me solicitou que selecionasse as três observações de TLP’s mais importantes o que fiz e que consta deste relatório. Este relatório está á disposição dos interessados através do e-mail : nelson-travnik@hotmail.com. Em João Pessoa Rubens foi membro do Instituto de Genealogia e Heráldica, membro fundador e presidente da União Brasileira de Astronomia, diretor da Casa de Cultura Raimundo Sela e diretor do Observatório da Paraíba.

RETORNANDO A FORTALEZA

Foi professor e coordenador do Curso de Licenciatura em Geografia da Universidade Estadual do Ceará, fundou o Observatório Oto de Alencar na Universidade Estadual do Ceará e a União Brasileira de Astronomia, UBA sendo eleito seu primeiro presidente. Nesta época publicou ‘O Cometa Halley’ (1985), ‘A Bandeira Nacional’ (1988), ‘O Homem Descobre o Mundo’ (1989) e ‘Memória de uma Caçador de Estrelas’ (1996), autobiografia. Juntamente com o Prof. Demerval C. Neto, amigo e companheiro, incentivou a ciência do céu a tal ponto de sensibilizar a direção de dois colégios, Christus e Sete de Setembro, a erigirem observatório em suas unidades e promoverem cursos de astronomia. Devido a seus artigos na imprensa, persistência, contatos inclusive políticos feitos com seu amigo Demerval, junto ao prefeito de Fortaleza e o Governador do Estado, é inaugurado no dia 26 de fevereiro de 1997, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema, o ‘Planetário Rubens de Azevedo’ contando com um projetor Carl Zeiss ZKP-3. O nome dado por proposição do Prof. Demerval e aprovado pela Prefeitura, a uma pessoa ainda viva, fato incomum, é um eloquente atestado do prestigio, conceito e admiração não só do cearense mas de toda a comunidade astronômica nacional a quem muito fez pela astronomia. Seu nome consta do Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica de Ronaldo R.F. Mourão por sinal, um de seus admiradores. De temperamento alegre e jovial, os que conviveram com ele guardam para sempre momentos inesquecíveis. Desde o falecimento da esposa “O Maior Amor” como intitulou em um dos capítulos de sua autobiografia, sua saúde começou a declinar sensivelmente vindo a falecer em 17 de fevereiro de 2008 aos 87 anos de idade. Várias homenagens lhe foram prestadas entre elas a que fizemos em Piracicaba, SP, colocando no ‘roll-off’ do Observatório Astronômico o nome de “Pavilhão Rubens de Azevedo”.

*Astrônomo nos observatórios municipais de Americana e Piracicaba, SP, e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França, SAF.

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