terça-feira, 1 de abril de 2014

Sol, uma estrela ainda mal conhecida

Nelson Travnik

Para o leigo, ela é apenas uma esfera de luz que nos ilumina e aquece. Contudo, essa magnífica estrela situada nos braços de uma galáxia espiral, a Via Láctea, é um astro que tem uma importância crítica para a humanidade, pois tudo que existe sob a superfície da Terra é fruto de uma cadeia energética que começou quando núcleos atômicos se fundiram em seu interior. Portanto, o que você come, bebe, o combustível que abastece o seu carro, aquele corpo bronzeado que lhe provoca suspiros, enfim, sua própria existência é um presente do astro-rei. Somos, por conseguinte, filhos de uma estrela e recuando ainda mais, da nebulosa primitiva que lhe deu origem. Isso explica o motivo pelo qual, intuitivamente, muitos povos antigos viam nele a razão da vida e o veneravam como deus. O Hino ao Sol do faraó Akhenaton que de um só golpe derrubou crenças milenares e introduziu o culto a Áton, o Sol, é uma das mais belas páginas dessa devoção ao astro-rei.


UMA USINA NUCLEAR NATURAL

O Sol é uma bola de plasma, gás altamente aquecido a temperaturas que não permite que os átomos estejam ‘inteiros’ e dizemos então que estão ionizados. Ele é 1.300.000 vezes maior em volume que  a Terra e por isso o seu núcleo é submetido a uma pressão externa da ordem de 340 bilhões de vezes a pressão do ar em nosso planeta, o que origina temperaturas próximas a 15 milhões de graus C!  Submetido a essa gigantesca pressão e temperatura, quatro átomos de hidrogênio se transformam em um átomo de hélio e este por sua vez em outros elementos. Na fase atual, o Sol é composto de 71% de hidrogênio, 27% de hélio e 2% de outros elementos. Isto caracteriza as estrelas amarelas do tipo G, uma espécie comum onde existem bilhões delas apenas na Via Láctea. O segredo, portanto, do Sol e das estrelas gerarem energia é de serem usinas naturais de transformadores de matéria através do processo da fusão nuclear. Para entendermos esse processo, basta dizer que a fusão de um grama de hidrogênio libera tanta energia quanto a combustão de 20 mil litros de gasolina! Agora o leitor está apto a compreender a razão desta corrida desenfreada pelos institutos avançados de pesquisa de molde a obter a fusão nuclear do hidrogênio em condições seguras. Estima-se que até 2050 isso será possível o que propiciará a humanidade dispor de uma fonte inesgotável de energia limpa, eficiente, sustentável e duradoura.

TUDO QUE ACONTECE NO SOL REFLETE NA TERRA

O Sol até certo ponto comparado a outras classes de estrelas, é um astro bem comportado. Isto deve-se a uma situação de equilíbrio que é mantido pela força de gravidade e pela pressão da radiação que flui do seu interior. Essa fase de equilíbrio e estabilidade só irá alterar quando acabar o hidrogênio do núcleo. Apesar atualmente de seis observatórios solares no espaço (SOHO, TRACE, RHESSI, SORCE, STEREO E YOKOHO) e outros tantos em terra monitorando o Sol em todas as faixas do espectro, podemos dizer que ele ainda é uma estrela que guarda alguns segredos. Em um período médio de 11 anos, irrompem no Sol uma série de fenômenos ainda mal entendidos, que causam imensos transtornos ao planeta azul. No aumento da atividade solar tal como estamos vivenciando agora, surgem gigantescos agrupamentos de manchas escuras passíveis até mesmo de serem observadas a olho nu com um filtro indicado ou mesmo sem filtro protetor quando o Sol está próximo ao horizonte mergulhado a nebulosidade ou névoa seca. 

Os chineses foram os primeiros a relatar que havia manchas no Sol. Em determinados períodos quando isso acontece, ninguém entende a razão pela qual o Sol inteiro reverte sua polaridade magnética geral: o pólo magnético norte se torna pólo sul e vice-versa. Mais estranho ainda é que o campo magnético da Terra também se reverte a intervalos aparentemente aleatórios. O mais recente foi a 780 mil anos. As pesquisas mostram que o Sol é como um coração pulsante, um ser vivo inquieto, palco constante de violentas convulsões que começam a partir do aparecimento cada vez maior de manchas em sua parte externa denominada fotosfera. Associadas as manchas irrompem imensas protuberâncias, flares, fulgurações e tempestades que liberam feixes contínuos de radiações altamente energéticas dos tipos ultravioleta, raios X e gama, extremamente nocivos aos seres vivos e que afetam o clima como está comprovado por pesquisas arqueológicas e exames nos anéis concêntricos de troncos de árvores centenárias. 

Felizmente nossa atmosfera e a magnetosfera nos protegem contra as radiações mais perigosas. Esse fluxo de partículas chamado vento solar é que mais preocupa os cientistas, pois enquanto algumas emissões a uma velocidade de 447,9 km/s levam quatro dias para chegar a Terra, outras nos atingem em poucas horas, tempo demasiadamente curto para proteger a frota de satélites de comunicação, de posicionamento global, alertas meteorológicos, as redes de energia elétrica e a Estação Espacial Internacional, ISS. Em 1989 uma fortíssima ‘Ejeção de Massa Coronal’, CME, provocou sobrecarga e incêndios nos equipamentos da rede elétrica Hidro-Quebec, Canadá, danificando e causando prejuízos de milhões de dólares! Em 1999 o satélite Galaxy 4 foi atingido deixando 40 milhões de usuários sem televisão além de bloquear contas bancárias. Em 28 de outubro de 2003, explodiu uma fulguração (flare) de proporções nunca vista nos últimos 40 anos. Felizmente a mega tempestade aconteceu na borda do disco solar e as radiações atingiram de leve nosso planeta. Mesmo assim, danificou três satélites japoneses, problemas em vários outros, na “Mars Odyssey” ao redor de Marte que perdeu um instrumento além de aviões que optaram por rotas mais ao sul. Na ocasião os astronautas da Estação Espacial Internacional, ISS, tiveram que se alojar no módulo ‘Zvesda’ que os protege do nível das radiações. 

O mundo atual está globalizado, ligado a uma rede de satélites. Se eles forem seriamente danificados por uma forte tempestade solar, o mundo pára e para sua reposição será necessário tempo e bilhões de dólares que irá afetar a economia de muitos países. Um fato intrigante é que as piores tempestades solares ocorrem nos anos em que o máximo solar vai esmorecendo. Até agora ninguém pode explicar porque isso ocorre e nem o chamado “Mínimo de Maunder”, um estranho período de 1645 a 1715 no qual praticamente não houve manchas no Sol. Esta diminuição da atividade solar coincidiu com a ‘Pequena Idade do Gelo’ na Europa. Rios congelaram e foi possível passear e patinar sobre eles. Por outro lado, não há ainda explicação convincente para que a chamada atmosfera solar (coroa) atinja temperaturas que vão a 2 milhões de graus C quando deveria ser bem mais fria.  Esses aspectos compõe um quebra-cabeça ainda longe de ser montado razão pela qual o Sol é monitorado intensivamente em terra e no espaço. 

Nelson Travnik é astrônomo, diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba - SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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