segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O céu do mês – Setembro 2014

Antônio Rosa Campos
arcampos_0911@yahoo.com.br
CEAMIG – REA/Brasil – AWB

As importantes conquistas na fronteira da ciência, certamente levam o ser humano a fascinante construção de si próprio. Como podemos perceber através da história que isso se iniciou bem antes das grandes navegações e no caso específico da ciência astronômica, como a invenção do telescópio acelerou-se bastante. Então o céu, foi, é e sempre será um fator motivacional para que a busca incessante da construção do ser humano seja profícua. Neste mês de setembro teremos a ocorrência de outra bela Lua Cheia (ela estará muito próxima do perigeu) o que tem se popularizado como “Super Lua”. Marca ainda essa época o início do equinócio da primavera no hemisfério Sul e outono no Norte. Saturno ainda proporcionará aos observadores localizados no pacífico norte uma espetacular ocultação. Voltando ao período em que predominava a ferrenha vontade de chegar às Índias navegando pela costa da África; feito conseguido pelo navegador português Vasco da Gama em 1498, isso sem dúvidas abriria também perspectivas a outros navegadores.  Fato é que qualquer nativo da Ásia ou das Américas, naquela época já descoberta era tratado por índio, é isso Johann Bayer representou muito bem em seu “Atlas Celeste” (Uranometria) de 1603. Então neste post mensal abordaremos algumas particularidades da constelação austral Indus e eu tenho certeza que todos irão se surpreender.


Ocultações de estrelas e planeta pela Lua 

rho Sagittarii

Em 05 de setembro a Lua +80% iluminada e com a elongação solar de 127°, ocultará a estrela rho Sagittarii de magnitude 3.9 e tipo espectral K1III. Esse evento poderá ser observado na porção setentrional do continente americano (Costa Oeste do Canadá e Estados Unidos), bem como ainda o Mar de Bering, Ilhas Aleutas e península de Kamchatka no nordeste da Ásia de acordo com a figura A, apresentada no quadro 1.

Dabih Major (beta Capricorni)

Em 06 de setembro a Lua +88% iluminada e com a elongação solar de 140°, ocultará a estrela Dabih Major de magnitude 3.1 e tipo espectral F8V+A0. Esse evento poderá ser observado na América do Norte (Sul do Canadá, Estados Unidos e México) e no oceano pacífico, englobando o Hawaii e ilhas da região da polinésia de acordo com a figura B, apresentada no quadro 1

Hyadum II (belta 1 Tauri)

Em 14 de setembro a Lua -63% iluminada e com a elongação solar de 105°, ocultará a estrela Hyadum II (delta 1 Tauri) de magnitude 3.8 e tipo espectral K0-IIICN0.5. Esse evento poderá ser observado no oceano pacífico (englobando a região da Federação dos Estados da Micronésia), Japão, Coréia do Sul e o sul da China, toda a região do sudeste da Ásia (exceto, o sul da Indonésia), bem como ainda o Sul da Índia e o Sri-Lanka de acordo com a figura C, apresentada no quadro 1.

lambda Geminorum

Em 18 de setembro a Lua -30% iluminada e com a elongação solar de 67°, ocultará a estrela lambda Geminorum de magnitude 3.6 e tipo espectral A3V. Esse evento poderá ser observado da região central da Ásia, norte da África e na Europa (exceto norte da península escandinava) até a região dorsal mesoatlântica norte de acordo com a figura D, apresentada no quadro 1.

(Subra) omicron Leonis

Em 21 de setembro a Lua -8% iluminada e com uma elongação de 34°, ocultará a estrela omicron Leonis (Subra) de magnitude 3.5. Esse evento poderá ser observado de forma diurna numa estreita região ao sul da Austrália Ocidental, cobrindo toda a região sul do Oceano Índico, incluindo Madagascar e região costeira da África meridional. Já dentro do continente africano, ela será observável do sul do Quênia, sul de Uganda, região central e Sul da República Democrática do Congo, sul do Congo e extremo sul do Gabão englobando ainda toda a porção sul do continente, de acordo com a figura E, apresentada no quadro 1.

A ocultação de Saturno em 28 de setembro 2014

Em 28 de setembro próximo, a Lua + 15% iluminada e com uma elongação de 45°, ocultará o planeta Saturno cuja magnitude estará estimada em 0.6. . Esse evento poderá ser observado no período diurno no leste da Ásia (Coréia do Sul e Coréia do Norte, nordeste da China, Japão, leste da Mongólia e da Rússia) e em período noturno no Hawaii e no Alasca, de acordo com a figura F, apresentada no quadro 1.


Planetas, asteroides e cometas!

Neste período realmente Mercúrio (0.1) destacar-se-á bastante, pois já em 11 de setembro ele estará no seu afélio (0.4667 ua.); seu rápido movimento fará com que no dia 21 próximo chega a sua máxima elongação (26° E), bem como sua dicotomia prevista para o dia 26. Vênus (-3.9) no dia 05 deste mês, além de estar muito próxima a brilhante Regulus (mag. 1.41) estará em sua mínima distância ao Sol (periélio = 0.7184 ua.), ainda poderá ser observado na constelação de Leão, embora suas elongações venham diminuindo gradativamente. Embora Marte (0.6) esteja diminuindo gradativamente suas elongações, sendo possíveis suas observações como mencionado anteriormente, não podemos deixar de observar este planeta na noite de 23 de setembro próximo, quando ele estará 0.1º da região central do Aglomerado Globular M80 (mag. 7.2). Por sua vez, o Aglomerado Aberto M44 (NGC 2632 – mag. 3.7) também conhecido como Presépio, Manjedoura e ainda Colmeia será uma ótima referência matutina para a fácil localização de Júpiter (-1.9), observável antes do nascer do Sol, a tabela 2 abaixo será uma ótima referência para essa localização.
Assim como Marte ainda poderemos observar Saturno (0.6) e seus anéis na primeira parte da noite, os comentários sobre as ocultações deste planeta vêm chamando bastante a atenção, sendo que neste período essa ocultação ocorrerá numa área pouco povoada do nosso planeta. Enquanto a oposição de Urano (mag. 5.7) está próxima, Netuno (7.8) continua muito bem posicionado na abóbada celeste para observações com telescópios acima de 140 mm; uma boa carta celeste ajudará a sua localização, Sigma Aqr (mag. 4.8) facilmente denunciará sua presença, sendo ainda outra referência para localização a NGC 7309, uma galáxia de magnitude 12.5 também na constelação de Aquarius.

Lua = As fases lunares neste mês, ocorrerão nas datas e horários abaixo mencionadas em Tempo Universal de acordo com a figura 2:
A ocorrência das apsides (Perigeu e Apogeu) lunares dar-se-á neste mês na seguinte sequência: Perigeu em 08/09 às 03:30 (UT), quando a Lua então estará somente 358.387 km do centro da Terra e Apogeu em 20/09 às 14:23 (UT), quando a Lua estará a 405.845 km do centro de nosso planeta.

Asteroides

Neste mês novamente, três brilhantes asteroides estarão com seus respectivos posicionamentos favoráveis às observações através de pequenos e médios telescópios. (40) Harmonia estará posicionado bem próximo as brilhantes estrelas Skat (mag. 3.2) e 71 Aqr (mag. 4.0) em 02/09 com uma magnitude 9.3; então se você já vem buscando observar Netuno nesta região, não terá dificuldades em localizar esse asteroide. Em 09 de setembro será a vez de (33) Polyhymnia (mag. 9.8), embora a fase da Lua não seja favorável, você poderá estender essas observações, ou mesmo antecipar em 7 dias; ele estará mais próximo ainda do planeta Netuno em Aquário e uma ótima referência então será novamente Sigma Aqr (mag. 4.8) e ainda a estrela 42 Aqr (5.3). Já o asteroide (84) Klio (mag. 10.7) poderá ser localizado na constelação boreal de Pegasus, a brilhante Algenib (mag. 2.8) e classe espectral B2IV será uma excepcional referência de localização deste asteroide.

Os Cometas

O que já estava bom ficará ainda melhor nesta época. O cometa C/2014 E2 (Jacques), pelo menos nos primeiros dias deste mês ainda estará acessível aos telescópios de pequeno e médio porte. 

A figura 3, uma imagem realizada por João Amâncio Ferreira do CEAMIG em 21 de julho último, demonstra como esse cometa vem sendo registrado pelos astrofotografos. Assim apresentamos na tabela 3 as efemérides para todo o período.

Nesta época estarão também bastante favoráveis as circunstâncias para as observações do Cometa C/2013 V5 Oukaimeden. Como mencionado no mês anterior seu periélio ocorre em 28 de setembro; e passada a fase do luar (100% iluminada) logo no início deste mês, ele será um astro facilmente identificável dentre as estrelas da constelação da Hydra (tabela. 4), após o dia 15 próximo. 

  
Ao que tudo indica a constelação de Hydra receberá também dentro dos seus limites o cometa C/2012 K1 Pan-STARRS (tabela. 5), ele ficará bastante favorável às observações antecedendo o crepúsculo matutino neste período. 


Tivessem essas páginas destinadas aos hipotéticos observadores localizados na superfície de Marte, estaríamos pedindo a todos para ficarem de olho no cometa C/2013 A1 (Siding Spring); embora a perspectiva observacional da superfície de nosso planeta seja outra realidade (tabela. 6). Entretanto isso não e fator que desmotiva a busca desse cometa em meio às estrelas da constelação de Pavo e acompanhar seu movimento, neste e no próximo mês.

CONSTELAÇÃO:

Indus

Como mencionamos a construção do ser humano é uma constante; e Johann Bayer representou muito bem a figura das civilizações até aquela época recém-descobertas, figurando o homem “indiano” no céu. Embora seja uma constelação mais acessível aos observadores austrais; Indus poderá ser facilmente reconhecida no céu tomando-se por base as constelações de Sagitário, Microscopium e Grou.

Embora não existam estrelas muito brilhantes nesta constelação, não será difícil reconhecer suas estrelas. Alfa Indus e uma gigante alaranjada de magnitude 3.1 e classe espectral K0 III, cuja distância calculada é de 98 anos-luz. Beta Indus, também uma gigante brilhante alaranjada de magnitude 3.6 e classe espectral K1II, a uma distância de 615 anos-luz.  Estrelas Alaranjadas do tipo K; possuem uma temperatura superficial entre 3500 - 5000 K, onde geralmente predominam em seus espectros linhas de metais e hidrogênio. 

Theta Indus, uma estrela Anã Branca de magnitude 4.3, classe espectral A5V(n) e mais rico em Ferro que o Sol, encontra-se também cerca de 98 anos luz de distância podendo facilmente ser localizada nesta constelação, em outra extremidade poderemos localizar Delta Indus, uma subgigante branca de magnitude visual 4.4 e classe espectral F0IV menos abundante em Ferro que o Sol estando a cerca de 188 anos-luz. A figura 4 desta constelação apresenta a distribuição dessas estrelas que poderá ser facilmente interpretado como um arco e flecha deste guerreiro.

Nas proximidades do Sol 

Embora não possuam objetos de céu profundo que venham ilustrar esse post visto que NGC 7090 apresenta um brilho superficial em torno de 13.0, sendo acessível somente a equipamentos de grande abertura (acima de 350 mm), valerá destacar nesta constelação Epsilon Indus; estrela de magnitude visual 4.6 e classe espectral K5V é uma das vizinhas mais próximas do Sol no espaço.  Atualmente, a sexta mais próxima de todas as estrelas visíveis. Somente Alpha Centauri,  Sirius, Epsilon Eridani, 61 Cygni e Procyon são conhecidas por serem mais próximas visíveis a visão desarmada.

Epsilon Indus está localizada a uma distância de 11,8 anos-luz, e possui um excepcionalmente grande movimento próprio anual de 4,69" que está entre os dez maiores movimentos conhecidos. Na sequência principal das estrelas do tipo K, tem cerca de 80% do diâmetro do Sol e cerca de 13% da luminosidade. Por encontrar-se próxima e bastante semelhante ao nosso Sol em tamanho e tipo,  um exoplaneta da massa de Júpiter poderia produzir perturbações mínimas no movimento dessa estrela. Em 1960 (através do Projeto Ozma) a busca de possíveis sinais de rádio desta estrela e alguns outros foi realizada [Burnham, 1977], mas até então sem sucesso. 

WASP-46 b, um “Júpiter Quente”

Entretanto com as descobertas sucessivas de planetas em torno de estrelas, em 2011 foi encontrado naquela constelação em torno de uma estrela de magnitude 12.9 e classe espectral G6V conhecida por WASP-46 (Wide Angle Search for Planets), um exoplaneta provisoriamente denominado WASP-46 b.

Por possuir uma massa maior que Júpiter 2.10-MJup (MJ = Massa Júpiter) e estar bem próximo a sua estrela hospedeira, (esse planeta extra solar possui o semi-eixo maior de sua órbita em torno de 1.31 ± 0.051 ua.), Isso faz com que WASP 46 b realize uma órbita em torno dessa estrela em apenas 1,43 dia, enquanto o seu tempo de trânsito (método pela qual foi descoberto) dar-se em aproximadamente em 113 Minutos.

O registro de trânsitos dos planetas extrassolares vem tornando-se dia a dia, uma prática entre observadores e foi exatamente em situações como essa, que o astrônomo Phil Evans de Rarotonga em Cook Islands registrou em 30 de junho de 2012 o trânsito registrado no gráfico e imagem CCD representado na figura 5.
Certamente nossos contemporâneos hoje podem se questionarem sobre diversos assuntos; e o que não falta nas diversas e interessantes rodas de amigos que conversam sobre temas como: Viagens Espaciais e o Universo e suas mais diversas nuances será um dos temas: “Exoplanetas”! Isso já faz dessa constelação novamente uma encantadora referência, deve ser esse o real motivo que levou o astrônomo a representar naquele início de século XVII a figura de um elemento até então desconhecido. Assim a presença humana entre o firmamento ficará novamente destacada.      

Boas Observações!

Referências:

- Mourão, Ronaldo Rogério de Freitas - Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro (RJ) - 1987, 914 P.

- Campos, Antônio Rosa - Almanaque Astronômico Brasileiro 2014, Ed. CEAMIG (Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais), Belo Horizonte (MG) - 2013, 111P.

- Burnham, Robert Jr. – Burnham´s Celestial Handbook (23567-X, 23568-8, 23673-0)– An Observer´s Guide to the Universe beyond the Solar System – Vol. Two – Dover Publications, Inc. New York – USA, 1978.

- Menzel, Donald H. A Field Guide to the Stars and Planets Including the Moon, Satellites, Comets and Other Features of the Universe; Houghton Mifflin Company; (March, 1975), Boston, MA (USA), 397p.

- Wil Tirion's - BRIGHT STAR ATLAS 2000.0, Willmann-Bell, Inc., Richmond, Vir. (USA), 1990. ISBN 0-943396-27-1.

- Cartes du Ciel - Version 3.8, Patrick Chevalley -  http://astrosurf.org/astropc - acesso em 06/08/2014.



- http://exoplanet.eu/catalog/wasp-46_b/ - Acesso em 06/08/2014.


- http://arxiv.org/abs/1105.3179 - Acesso em 06/08/2014.

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