sexta-feira, 1 de maio de 2015

Canalistas X Anticanalistas, a grande polêmica dos canais em Marte!

Nelson Alberto Soares Travnik
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba - SP

O que levou astrônomos de renome a ver uma rede de alinhamentos em Marte sugerindo obra de uma civilização?
                                        
       
Desde sua existência nesse planeta, o homem não quer viver só. Odeia a solidão. Com o tempo, ampliou essa solidão para muito além da Terra, para os astros do universo, algo que perdura até hoje. 

Após a invenção da luneta pelo óptico alemão, naturalizado holandês, Hans Lippershey (1587-1619) e o seu emprego pela primeira vez no estudo do céu por Galileu Galilei (1564-1642) em 1609, passamos a construir instrumentos cada vez maiores no afã de conhecer melhor os outros planetas e descobrir neles algum vestígio de vida.

E o melhor candidato revelou-se ser Marte, o Planeta Vermelho. A escolha era óbvia: a duração do dia muito parecido com o nosso (24h 37m 23s), também a inclinação de 24° 46’ do equador em relação a órbita (Terra: 23° 27’) determinando estações do ano , duas alvas calotas polares e tem satélites como a Terra. Isso motivou o inicio de uma polêmica centenária que começou na verdade em 1860, aqui no Brasil, com o astrônomo Emmanuel Liais (1826-1900) contratado por D. Pedro II para dirigir o Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Ele argumentava que as manchas escuras vistas em Marte eram resultado da presença de vegetação. Contudo foi na grande aproximação de 1877 com o astrônomo italiano Giovanni Virginio Schiaparelli (1835-1910), então diretor do Observatório de Brera ,que um fato novo surgiria.   A aproximação de 1877 no dia 5 de setembro colocou Marte há “apenas” 56.550.000 km da Terra.  Observando o planeta com uma luneta “Merz” de 22 cm, anunciou a descoberta de sulcos e acidentes retilíneos em sua superfície. Chamou as manchas escuras de “mares” e outras de “estreitos” e “canais”, este último indicando que poderia ser tanto uma configuração natural do terreno como uma construção artificial. O estopim estava aceso. Restava apenas outros astrônomos confirmarem os canais e encontrar os habitantes  de Marte!

Como as calotas polares desaparecem quase por completo no verão marciano, para muitos estava claro que, para um relevo árido e desértico, esses canais eram obra de uma civilização agonizante que os construíram para, a partir dos pólos, irrigar o planeta. O assunto começou a tomar tal dimensão, que o governo italiano presenteou Schiaparelli com uma grande luneta de 49 cm da firma alemã “Merz-Repsold”. Enquanto o italiano limitou-se a relatar “canali” como interpretação puramente hipotética, Camille Flammarion (1842-1925) conclui com entusiasmo: “Essa rede singular de linhas retas, de milhares de quilômetros de comprimento só pode ser uma obra de arte; prova a existência, em Marte, de criaturas racionais, de extraordinária capacidade produtiva e inteligência muito superior a nossa”. Inflamado pela opinião de Flammarion, Schiaparelli deixaria também se envolver por ela.  Flammarion dispunha em seu Observatório de Juvisy de uma excelente luneta com objetiva de 24 cm de diâmetro construída por Bardou. Juvisy não era somente um observatório mas um centro de cultura com vasta biblioteca e convergência de astrônomos e intelectuais da época. D. Pedro II astrônomo amador, era um desses intelectuais e foi convidado de Flammarion para inaugurar o Observatório de Juvisy em 1877. Era difícil não se deixar envolver pelo fascínio que tal hipótese exercia. E, de fato, ela foi rapidamente adotada pela opinião pública.

A partir daí, rios de tinta e toneladas de papel foram consumidos  contagiando escritores e astrônomos. Muitos não concordavam com essa teoria argumentando serem os traços retilíneos um alinhamento ilusório tendendo a geometrizar-se pela distância. Estava inaugurado o ciclo de acirrados debates entre canalistas x anticanalistas.
             

A idéia alimentada por Flammarion apaixona um milionário diplomata californiano, Percival Lowell (1855-1916) que resolve abandonar a carreira para construir em uma zona semi-desértica do Arizona, a 2.300 m de altitude, o Observatório Flagstaff,  o seu “Castelo de Marte”, instalando uma luneta de 49 cm e mais tarde uma outra de 61 cm, fabricada por Alvan Clark (1832-1897). Ele dedicou sua fortuna e 15 anos de vida a esse projeto. Em 1895 em seu livro “Marte”, elabora um planisfério e atesta a presença  de 184 canais ! Em 1896 ele escreve: “Marte era verdejante; hoje é um deserto. Os marcianos lutam contra essa fatalidade”. Em 1906  em seu livro “Marte e seus Canais” indica que eles haviam sido construídos por seres inteligentes formando uma extensa rede de distribuição. No livro ele atesta a presença de mais canais em um planisfério realizado em 1905. Em seus livros “Mars as the Abode of Life” (1908) e “The Evolution of Worlds” (1909), ele confirma a existência de mais canais e para ele não há duvida: esses canais são retilíneos demais e só podem ser artificiais construídos pelos marcianos para lutar contra uma devastadora seca. Finalmente surgiam nossos irmãos do espaço!

Lowell para compensar condições atmosféricas desfavoráveis objetivando tranqüilidade na imagem, utilizava a prática de diafragmar o diâmetro da objetiva de 61 para 38 cm. Essa técnica é ainda comum na observação planetária e para tal existe uma escala do “seeing” que determina a qualidade da transparência atmosférica. A máxima aproximação (oposição periélica) de 1909 foi intensamente observada por Lowell e a última pois ele faleceu repentinamente em 1916 com apenas 61 anos, convencido de que Marte era habitado por seres mais evoluídos que nós e que haviam construído uma rede hídrica para aproveitar a pequena quantidade de água disponível. A obstinação de Lowell era explicável: no século XIX, os canais eram de importância crucial para o comércio internacional e o maior deles, o de Suez, constituía uma marca da inteligência humana. Se os humanos construíam essas obras monumentais, então não seria surpreendente que os marcianos fizessem o mesmo. Aqui mesmo no Brasil, guardada as devidas proporções, não estamos construindo um canal para levar água do rio São Francisco às regiões áridas do nordeste?  Apesar de ter errado sobre a existência de canais e vida inteligente em Marte, ele arriscou uma previsão em 1915 sobre a existência de um outro planeta além de Netuno, estudando matematicamente as perturbações deste e de Urano. A teoria de Lowell foi comprovada em 18/02/1930 por Clyde Tombaugh com a descoberta de Plutão. Foi o maior legado de Lowell a astronomia.

Todavia a opinião de Lowell sobre Marte não encontrou respaldo aquela época com as observações feitas pelos astrônomos Edward Barnard (1857-1923) utilizando a grande luneta com objetiva de 89 cm do Observatório Lick, (doação do milionário californiano James Lick) em 1888 e em 1892 com John E. Mellisch utilizando a luneta com objetiva  de 101,6 cm, a maior do mundo até hoje, do Observatório Yerkes, doada pelo milionário e homem de negócios de Chicago, C. T.  Yerkes. Ambas objetivas foram construídas pela firma norte americana Alvan Clark & Sons. Os dois  astrônomos em aproximações favoráveis não conseguiram ver o que Lowell havia desenhado.

Em 1893 entra em cena no Observatório de Meudon, França,  uma grande luneta com objetiva de 83 cm  construída pelos irmãos Paul e Prosper Henry. Ainda hoje a maior da Europa e a terceira do mundo, foi então utilizada pelo renomado astrônomo Eugène Michael Antoniadi (1870-1944). Apesar de amigo de Flammarion a quem chamava “caro mestre”, ele deduziu em 1920 que os canais vistos pelo amigo e por Lowell, eram completamente ilusórios e que “eles desagregam em inúmeros traços irregulares”. Convém notar que Antoniadi realizou os melhores mapas de Marte antes das sondas espaciais. Contudo, decifrar àquela época os enigmas marcianos era extremamente difícil, uma vez que mesmo vendo esse planeta mais próximo, não vemos melhor que a Lua a olho nu. Quem tentar enxergar alguma coisa na Lua a olho nu, compreenderá o problema de Marte.

Marte nas condições mais favoráveis e com os maiores telescópios,  os “canais” se decompunham em granulações e traços irregulares, mostrando que os mesmos eram mero fenômeno de óptica. Foram pois os olhos os inventores da rede de canais. 
  
Apesar da relutância de alguns em aceitar as conclusões de Antoniadi, a entrada em cena de telescópios cada vez maiores como os de Monte Wilson e Monte Palomar nos EUA, mostrava difícil a existência dos canais. Mas faltava o golpe final e ele veio com as sondas americanas Mariner 4 em 1965 e com as  Mariner 6 e 7  em 1969. A primeira obteve 21 fotografias, a segunda 76 e a terceira 126. Pela primeira vez mostraram enormes cones de extintos vulcões, um sem número de crateras de impacto e uma paisagem desértica. Dos canais e dos marcianos nem sinal! Os anticanalistas venceram! Estava encerrado finalmente um dos mais acirrados e calorosos debates na história da ciência.

Anote: A próxima oposição periélica de Marte está marcada para o dia 27 de julho de 2018. Seu disco em segundos de arco será de 24.1” e ele estará distante da Terra 0.386 UA (Unidades Astronômicas) ou 57.900.000 km

Referências:

L’ Astronomie, revista da Sociedade Astronômica da França, dez. 1975
L’ Astronomia , revista Edizioni Media Press, maio 1984 e dezembro 1995
Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão,2ª edição, editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ.

Nelson Alberto Soares Travnik é astrônomo, diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba, SP, e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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