sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Universo, Evolução e Sobrevivência

Nelson Alberto Soares Travnik
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba - SP

Há mais de dois mil anos o homem acreditou ser a Terra o centro do universo. Todos os corpos celestes giravam ao seu redor. Tudo fora criado para ele.  Com Aristarco de Samos (310 -230 a.C.) e mais tarde com Nicolau Copérnico (1473-1543), ficou demonstrado que a Terra e os outros planetas giravam ao redor do Sol e que o movimento das estrelas à noite era aparente, causado pela rotação da Terra. Ao deslocar a Terra do centro do sistema solar e do universo, era desferido o primeiro grande golpe na vaidade humana. O seguinte viria com Galileu Galilei (1564-1542) ao apontar pela primeira vez em 1609, uma luneta para o céu. Além de comprovar o heliocentrismo de Copérnico, realizou descobertas notáveis, mas que iam de encontro as concepções dos doutores da Igreja. Para eles, destronar a Terra do centro do universo, da criação, era inadmissível, uma heresia. Ciente do risco que corria e não querendo virar churrasco a exemplo de Giordano Bruno (1550-1600), optou por se retratar perante o Tribunal da Santa Inquisição reunido no Convento de Santa Maria Sopra Minerva em 22/06/1633. Dizem que ao se retirar do Tribunal teria dito baixinho: Epur si muove! No entanto [a Terra] se move! O golpe final viria com Edwin Hubble (1889-1953) descobrindo que a Via Láctea, a nossa Galáxia, não era mais do que uma entre muitas bilhões. Até então acreditava-se que todo o universo estava contido na Via Láctea. Um fato novo contudo começou nos últimos 23 anos com a descoberta dos primeiros exoplanetas em torno de uma estrela, um pulsar. Satélites com precisões altíssimas, telescópios com dezenas de metros de diâmetro e os satélites CoRoT (europeu) e o norte-americano Kepler, destinados a detectar exoplanetas, permitiram atualmente aumentar seu número em mais de 3.000. Acredita-se que existam milhões, bilhões a serem descobertos em nossa galáxia. É a coroação do que disseram entre outros Giordano Bruno e Camille Flammarion (1842-1925), ao defender a pluralidade dos mundos habitados. Agora através dos radiotelescópios os esforços concentram-se na recepção da tão aguardada mensagem: também estamos aqui! Acreditar que não existem mundos habitados na amplidão cósmica, é algo que atualmente soa como anti-científico. Isto indica que estamos no limiar de descobertas passíveis de provocar um impacto filosófico na humanidade de consequências imprevisíveis! Quem viver verá.

EVOLUÇÃO

Há 206 anos, nascia o inglês Charles Darwin (1809-1882), autor da “Origem das Espécies”. Nele Darwin diz que somos descendentes de vermes e moluscos que surgiram nas tépidas águas dos mares primitivos há 3,5 bilhões de anos. A comunidade científica e o clero estremeceram. A teoria evolucionista afrontava a Bíblia. Seu colega Alfred Russel paralelamente havia chegado a mesma conclusão em suas pesquisas. A ação da seleção natural na origem das espécies é ponto fundamental da teoria da evolução que viria ser comprovada cientificamente. João Paulo II em 1996 declarou que a Teoria da Evolução era “mais do que uma hipótese, um fato efetivamente comprovado”. O papa Francisco sobre a criação argumentou o risco de imaginar que “Deus tenha agido como um mago, com uma varinha mágica”. Em tom conciliatório, tanto a evolução como a Teoria do Big Bang são hoje corretos para a Igreja. Mas apesar disso, várias religiões e crenças não se rendem, negam a evolução e mantém ainda a varinha mágica do Criador. Há cerca de 3 milhões de anos, um primata meio homem e meio chipanzé, deu inicio a uma evolução lenta e progressiva pois a natureza não dá saltos. Isto é comprovado pela descoberta de inúmeras ossadas com datação pelo C-14. O que a ciência procura numa tarefa quase inatingível, é o elo  de uma para outra espécie : quando teria ocorrido a mutação genética nos nossos parentes mais próximos. Apoiados nas descobertas astronômicas, os cientistas concordam que somos subproduto de água, terra, luz e outros elementos gerados no interior de uma estrela : o Sol. A descoberta de diversas moléculas orgânicas no meio interestelar, gelo e carbono nos cometas e astros assemelhados, reforça a idéia de que o universo é um celeiro de vida. Somos portanto, poeira cósmica evoluída. A nucleossíntese primordial e a nucleossíntese estelar produziram elementos que fazem parte dos nossos corpos.


SOBREVIVÊNCIA

Há exatamente 133 anos, depois do impacto da teoria de Darwin, em plena Era Espacial, ainda questionamos como podemos descender de seres inferiores se somos tão inteligentes, possuímos um sistema nervoso da mais alta complexidade e uma consciência agregada a uma variedade enorme de correntes filosóficas. A sobrevivência do ser humano em que pesem as eras glaciais, sempre foi mantida graças a sua inteligência, resistência e o equilíbrio ambiental na qual as algas e não as florestas continentais são as principais protagonistas da fotossíntese. A história da Terra pela geologia nos mostra a importância dos oceanos como “a mãe da vida”. É do espaço que sentimos quão frágil é o planeta azul, já alvo de cinco extinções em massa. Agora somos nós com desmesurada agressão ao meio ambiente, os protagonistas de um futuro sombrio. Para a atual geração, vale sempre lembrar as sábias palavras do chefe Seattle, índio americano do século passado: “o que acontecer com a Terra, recairá sobre os filhos da Terra. O homem trançou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo que fizer ao tecido, fará a si mesmo”.

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Nelson Travnik é astrônomo, diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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