segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Porque 2016 é um ano bissexto?

Nelson Alberto Soares Travnik
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba – SP

A cada quatro anos temos um ano de 366 dias e com isto este mês teremos mais um dia em fevereiro. Para os nascidos no dia 29, é a oportunidade de comemorar o aniversário no dia certo. Para alguns, são anos cercados de mitos, tradições e crendices.

A palavra bissexto vem do latim bissextus que significa, duas vezes sexto, ou seja, que o ano tem 366 dias (duas vezes o número 6). Na prática o calendário é um conjunto de regras baseadas na astronomia. Grande parte da humanidade utiliza o calendário gregoriano, criado sob iniciativa do papa Gregório XIII (1512-1585) e introduzido a partir de 24/02/1582. O ano bissexto surgiu em 238 a.C. em Alexandria, no Egito, durante a monarquia de Ptolomeu III (246 – 222 a.C.). Foi então decretada a adição de um dia a cada quatro anos para compensar o excesso de 6 horas na duração do ano de 365 dias. As raízes portanto do ano bissexto está no Egito. 

Contudo verificou-se mais tarde que simplesmente o acréscimo de um dia a cada 4 anos não resolvia o erro acumulativo com o passar dos anos. Algo precisava ser feito e disso se encarregou o imperador Júlio César (100 -44 a.C.) . Em 46 a.C. apoiado nos estudos do astrônomo grego Sosígenes, instituiu o seu Calendário Juliano. No inicio tudo funcionava bem. Com o tempo entretanto, simplesmente adicionar 1 dia a cada 4 anos não resolvia o problema uma vez que há um diferença entre o dia solar de 24 horas que adotamos, com o dia sideral (rotação verdadeira da Terra) que é de 23h 56m 04s. Essa diferença entre um e outro de 3m 56s, fez com que após mais de 16 séculos as estações do ano não estavam acontecendo na época prevista. 


O equinócio da primavera no Hemisfério Norte caia por volta do dia 12 de março em vez do dia 21 e isto estava causando grande transtorno para a agricultura e assim alguém tinha que fazer alguma coisa. Esse alguém  como mencionado, foi o papa Gregório XIII (figura acima) que para isto consultou o astrônomo, filosofo e cronologista Luigi Giglio (1510-1576) e depois o matemático, sábio e jesuíta alemão Christopher Clavius (1538-1612). O objetivo da mudança era mudar o equinócio da primavera (no Hemisfério Norte) para 21 de março e desfazer o erro de 10 dias existente na época. O primeiro morreu em 1576 antes que a reforma fosse concluída e então coube a C. Clavius estabelecer as novas regras do novo calendário. Este preconizava que para corrigir a diferença observada no Calendário Juliano só seriam bissextos os anos seculares divisíveis por 400. 

Dessa forma a diferença (atraso) de 3 dias em cada 400 anos observado no Calendário Juliano desapareceu. Baseados nos estudos feitos por esses dois cientistas, o papa Gregório XIII editou a bula “Intergravissimas” de 24/02/1582 decretando a reforma do calendário que utilizamos até hoje. Foi um trabalho que demandou 5 anos. Apesar dos ajustes nos anos bissextos, o ano do Calendário Gregoriano ainda tem cerca de 26 segundos a mais que o período orbital da Terra que descreve uma elipse ao redor do astro-rei. Esta falha entretanto só acumula um dia a mais em 3.323 anos. Portanto daqui a 3.323 anos vai haver um dia a mais. Com isto surge a pergunta: é viável novo calendário? Longe disso, visto que os ciclos naturais dos dias, meses e anos não são redondos, pares perfeitos. São frações, números quebrados e ai começa um problemão. 

Por isso tentativas de mudança já foram feitas mas não vingaram e, por enquanto, tudo fica como está. Por fim, como tudo envolve o tempo, você já se perguntou o que é o tempo ? Nesse sentido, recordando o físico alemão Albert Einstein, “o tempo como é conhecido, não passa de uma “invenção”.

Nelson Travnik é astrônomo e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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