quarta-feira, 1 de junho de 2016

Uma viagem ao Cruzeiro do Sul, uma constelação com muitas histórias.

Nelson Alberto Soares Travnik (*)
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum

Com apenas 68 graus quadrados, ela é a menor de todas as constelações, mas uma das mais célebres que domina as noites de outono.

Até agora os historiadores não chegaram a um acordo de quem a viu pela primeira vez. Sabe-se que era vista pelos habitantes do Alto Egito (Tebas) há milênios. As principais estrelas estão catalogadas no Almagesto de Claudio Ptolomeu (85 -165 a.C.) na constelação do Centauro. Muitos navegadores a viram mas não a batizaram como Cruzeiro. É o caso dos navegadores portugueses João de Lisboa e Pero Anes que em 1506 fizeram observações do Cruzeiro em Cochim, na latitude de 10 graus. A designação tornou-se universal pelo astrônomo Johannes Bayer (1572-1625) em sua célebre obra Uranometria, atlas celeste publicado em 1603 e autor do primeiro mapa das novas constelações situadas ao redor do pólo sul celeste. Mais tarde em 1679, viu-se classificada como tal pelo astrônomo Agostinho Royer. Para alguns, foi o famoso Mestre João, astrônomo e médico da comitiva de Pedro Álvares Cabral que a viu e registrou pela primeira vez em carta enviada ao rei de Portugal Dom Manuel em 1500. Nela consta “(...) estas estrelas principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro (a Ursa Maior) (...)”.

Principais Estrelas da Constelação

A constelação do Cruzeiro do Sul, conhecida entre os astrônomos de todo o mundo por “Crux Australis”, possui estrelas notáveis pelo brilho de suas componentes e é facilmente identificável nesta época do ano. A estrela mais brilhante Alfa Crucis ou Acrux, popularmente conhecida como Estrela de Magalhães, é uma belíssima estrela azul que é tripla, distante 200 anos-luz e que representa o Estado de São Paulo no pavilhão nacional. 
A segunda mais brilhante é Beta Crucis ou, Becrux também conhecida como Mimosa e que representa o Estado do Rio de Janeiro. Ela é 5800 vezes mais luminosa que o Sol! Próximo a ela existe uma estrela de fraca luminosidade, a Kappa Crucis onde situa-se um dos mais belos aglomerados abertos de estrelas chamado por J. Herschel de “Caixa de Jóias” formado por estrelas de diferentes cores e que se encontra a 7000 anos-luz! Retornando as estrelas do Cruzeiro, a terceira mais brilhante é Gama Crucis ou Gacrux que é uma gigante vermelha, dupla, conhecida como Rubídea e que representa o Estado da Bahia. É cerca de 900 vezes mais luminosa que o Sol e distante 500 anos-luz. A seguir vemos a estrela Delta Crucis, conhecida como Pálida. É também uma estrela gigante, 1900 vezes mais luminosa que o Sol e que representa o Estado de Minas Gerais em nosso pendão. Um dos aspectos que desperta atenção nessa constelação, é uma imensa região escura conhecida como “Saco de Carvão”. Em noites limpas, sem luar e isenta da iluminação das cidades, pode-se notar uma ausência quase total de estrelas entre Mimosa e a estrela de Magalhães. Isto se explica porque naquela região há uma colossal nuvem de gás interestelar que impossibilita a passagem de luz das estrelas de fundo.

O Cruzeiro do Sul está indelevelmente ligado ao descobrimento do Brasil e é detentor de uma tradição histórica, poética e religiosa. Nós brasileiros fizemos dele patrimônio nacional. 

(*) O autor é astrônomo do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum-SP, e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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