quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Terra sob fogo Cruzado

Nelson Alberto Soares Travnik (*)
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum


Vagando pelo espaço existem objetos rochosos e/ou metálicos sem atmosfera que orbitam o Sol. São os asteroides que podem ser vistos como objetos individuais ou membros de uma população de corpos celestes.

Tudo começou após a criação do Sistema Solar. Um gigantesco bombardeio de objetos que não participaram da sua formação, passaram a colidir com os planetas e seus satélites. Essas marcas são visíveis até hoje. Na Terra há cicatrizes em todos os continentes. Em nosso País existem doze crateras de impacto sendo a mais exuberante a da Serra da Cangalha/TO, com 13 km de diâmetro. Esta fase apocalíptica terminou mas não impossível de acontecer casos isolados. 

Cratera de Serra da Cangalha-TO, Brasil.

O caso de Chelyabinsk na Rússia em 15/02/13, concorreu para aumentar essa preocupação. O objeto de aproximadamente 40 toneladas de massa, não fosse fragmentado na alta atmosfera, teria destruído a cidade. Essa preocupação começou na verdade em julho de 1994 após a serie de impactos do cometa Shoemaker-Levy com o planeta Júpiter. O chamado “trem nuclear” fosse na Terra e o leitor não estaria lendo essas linhas. Para detectar asteroides que passam próximos à Terra, foi criado o programa internacional NEO’s, Near Earth Objects. Atualmente são descobertos 100 NEO’s por mês. Os asteroides capazes de realizar aproximações ameaçadoras à Terra são conhecidos por PHAs, Potentially Hazardous Asteroids. Os da família Apollo já conta com 5.202 asteroides conhecidos, alguns com potencial chance de impacto com a Terra. As descobertas de asteroides são catalogadas no “Minor Planet Center”, Cambridge, Massachusets,, EUA. Atualmente são mais de 70.000 com denominação definitiva, o que indica terem uma orbita bem definida. 

Asteroide Ida

Astrônomos amadores em todo o mundo também colaboram no afã de detectar esses objetos intrusos. A observação é difícil porque são escuros refletindo apenas 3% a 5% da luz solar. Os metálicos mais raros refletem um pouco mais, de 10% a 15%. Com fraco poder de refletividade (albedo) muitos passam desapercebidos e quando detectados já estão sob nossas cabeças. O caso de Chelyabinsk é um exemplo disso. Ninguém o havia detectado. Em Itacuruba - PE, Brasil, o Observatório Nacional no projeto ‘Impacton’, instalou um telescópio de 1m de diâmetro robotizado fabricado na Alemanha dedicado a busca de asteroides próximos à Terra. Nos últimos anos, agências espaciais dos EUA, Europa e Ásia, trabalham juntas no intuito de criar uma sistema de defesa real contra as ameaças de colisões desses astros com a Terra.

Meteoros

Meteoros popularmente conhecidos como estrelas cadentes, é o nome genérico dos fenômenos que ocorrem na atmosfera da Terra. São simplesmente pedaços de matéria que penetram na atmosfera e com o atrito com as moléculas de ar, se volatilizam deixando atrás de si um rastro luminoso. São muito conhecidas as chamadas chuvas de meteoros que ocorrem todos os meses e estão associadas aos cometas que, ao se aproximarem do Sol a temperatura deste faz com que o componente gelo misturado a poeira e detritos escapem de sua superfície e caiam na Terra ao passar esta no ponto de intersecção com suas orbitas. Esses meteoros produzem na atmosfera uma coloração que varia de conformidade com seus elementos químicos. O verde indica magnésio, o alaranjado ferro, o azul lilás cálcio e o amarelo sódio. A mais célebre chuva de meteoros da história foi a ‘Leonídeas’ que ocorreu em 1833 quando foram vistos 150.000 por hora! 

Chuva de meteoros em 1833

Existem no mundo vários órgãos monitorando esses objetos. No Brasil isto é feito pela rede BRAMON, Brazilian Meteor Observation e pela Estação EXOSS tendo como coordenador o astrônomo Marcelo de Cicco.

Meteoritos

Já o termo meteorito são os que conseguem vencer a atmosfera e atingem a superfície. 65% deles são compostos quase que exclusivamente de ferro e níquel, chamados sideritos. Outros 8% são os siderolitos, uma mescla de materiais rochosos e metálicos e por fim os aerólitos compostos 27% de materiais rochosos. No espaço esses objetos são conhecidos como meteoróides. Estimativas indicam que caem anualmente 500 meteoritos na Terra. O mais famoso no Brasil é o Bendegó com 5.360 quilos que acha-se exposto no Museu Nacional no Rio de Janeiro. 

Meteorito do Bendegó 

Alguns deles são tão antigos ou mais que o próprio Sistema Solar e seu estudo permite conhecer a matéria primitiva desses tempos longínquos. Acredita-se que grande parte da água na Terra assim como a matéria orgânica abiótica necessária a formação da vida (hidrocarbonetos) possam ter vindo nos cometas e meteoritos. Alguns meteoritos são raríssimos: vieram da Lua e de Marte. Foram ejetados desses astros por impactos de grandes corpos celestes e capturados pelo campo gravitacional da Terra. Os lunares são conhecidos pelos astrônomos como tectitos e tem uma coloração entre preto e esverdeado. Os mais famosos marcianos são o Black Beauty encontrado no Saara e o ALH84001 encontrado na Antártida, este último mostrando estruturas tubulares sugerindo fósseis de micro-organismos. Por fim existem também os raríssimos hidrometeorítos. Em Campinas-SP, Brasil no dia 11/07/1997, uma pedra de gelo de 100/300 kg caiu no telhado da fábrica Mercedes Benz. Quatro dias depois, um outro bloco de 60/80 kg caiu no Sítio São Luiz a 2 km da vizinha cidade de Itapira. Felizmente 10 kg recolhidos em Campinas e alguns pedaços em Itapira foram imediatamente colocados em um freezer permitindo que análises químicas feitas na UNICAMP, no CENA em Piracicaba, na Divisão de Química da Petrobrás e até no Sandia National Laboratory dos EUA, provassem sua origem extraterrestre. Chamado a opinar como membro da comissão instituída pela UNICAMP, inclinei pela hipótese, face ao tamanho dos blocos, de serem pedaços de núcleo de cometa. Embora muito remota, por incrível que possa parecer, existem muitos registros de pessoas, casas, fábricas, automóveis e animais vítimas dessas balas do espaço.  
Médico examina a Sra. Ann Elisabeth Hodges, atingida por um meteorito
 em sua residência no Alabama-EUA, em 1954.

Em 1836, em Macau-RN, Brasil, há relatos de vacas mortas atingidas por meteoritos. Em 28/06/1911 um cachorro foi atingido e morto em Nakla no Egito. Em 1954 no Alabama, EUA, uma senhora foi atingida na perna e um meteorito também nos EUA caiu na casa de John J. Mc Auliffe perfurando a laje. Em 1992 na cidade de Peekskill - EUA alguns carros foram atingidos por meteoritos e centenas de telhados perfurados. 

(*) Nelson Travnik é diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba/SP, e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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